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Pessoas ME: Começamos pelo TI…

Se pensa que o papel das mulheres na área de tecnologia é uma coisa do século XXI engana-se, saiba que o primeiro algoritmo desenvolvido foi feito por uma mulher – Ada Lovelace. Inúmeras linguagens de programação foram criadas por outras mulheres: a Irmã Mary Kenneth Keller (BASIC), Grace Hopper (COBOL). Já para não falar de Katherine Johnson e toda a equipa da NASA de Dorothy Vaughn e os seus papéis no envio do Homem à Lua, contados no filme de 2016, Hidden Figures (Elementos Secretos). 

Como podemos ver, a Mulher tem uma grande importância na história da tecnologia, no entanto, ver uma mulher na área de TI ainda é uma novidade, foi por isso que decidimos começar esta colecção de entrevistas sobre PESSOAS ME com a Margarida Félix, que trabalha actualmente nesta área no Mercado Eletrônico em Portugal.

1. Quando descobriste a tua vocação para trabalhar com tecnologia? Já pensaste em trabalhar noutra área?

Margarida

Por muito estranho que pareça, apenas descobri a minha vocação quando entrei na universidade. À medida que crescia, os meus interesses divergiam bastante, um dia queria ser Dentista, no outro Designer de Interiores, já para não falar de ser Bióloga Marinha, Fotógrafa ou até mesmo Estilista. Acabei por ir para Ciências e Tecnologia no secundário, mas no fim do 12° não fazia ideia do que queria seguir ou o que fazer com a minha vida. Tinha 14 de média, o que não era excelente, não tinha a opção de poder “ser o que eu quiser”. Acabei por entrar em Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o que não me satisfez, por isso resolvi fazer um ano de melhorias. No fim desse ano, estava tão confusa como no ano anterior, pelo que decidi fazer carreira de algo que me permitisse ter emprego facilmente. Fui estudar Engenharia Informática e Multimédia no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, apesar de não perceber nada de computadores e muito menos de informática. Foi um “all-in” que já está a compensar bastante, e não, já não me vejo a fazer outra coisa.  

2. O que mais te motiva a trabalhar na área de TI?

A área de TI engloba tanta coisa que é impossível não gostar de nada, todos os dias se aprende algo novo. Qualquer pessoa com conhecimento suficiente nesta área é capaz de desenvolver um projecto rentável apenas com um computador. As únicas ferramentas que precisa é o computador e internet, e a partir daí tem acesso ao mundo apenas com as pontas dos dedos. Um Engenheiro Civil pode projectar um edifício, mas não consegue construí-lo sozinho, o mesmo acontece com qualquer outra engenharia. Dá liberdade de horários (se não trabalhar com uma equipa) e de localização, posso trabalhar de qualquer lugar para qualquer lugar.

3. Quais são as linguagens de programação que preferes e porquê?

Tenho um carinho especial por Java, foi com essa linguagem que aprendi a programar. Gosto da organização, da capacidade de caracterizar qualquer coisa em objectos e, especialmente, de estabelecer relações entre objectos. Por outro lado, acho Python super cativante devido à sua “facilidade” que muitas vezes dá para o torto, o típico “isto funciona e só o Universo sabe como” ou, infelizmente, o contrário. É uma óptima linguagem para programadores experientes, e péssima para júniores por, por exemplo, não terem que estar preocupados com a definição do tipo das variáveis. Neste momento tenho interesse em aprender C, porque permite tomar decisões que ao desenvolver em Java ou Python são tomadas “por trás”.

4. Quais os principais desafios que enfrentaste e enfrentas dentro da área? E algum está relacionado com o facto de seres a única rapariga no meio de tantos TI’s homens?

Acho que qualquer tipo de engenharia é, por si só, um desafio muito grande. Aprender os básicos foi demorado, principalmente o pensamento necessário para programar e aplicar esse conhecimento a problemas reais. Por outro lado, o meu gênero nunca foi um problema, nem nunca outra mulher nesta área me falou de algum problema que lhe tenha ocorrido pelo simples facto de ser mulher. Acho que o que importa é cada um saber fazer o seu trabalho independentemente do seu género, e é essa a mentalidade que tenho observado no mundo profissional, o que é fantástico.

5. Achas que faltam mulheres na área de TI? E o que um maior número nesta área podia trazer de novo?

O número de mulheres na área de TI continua baixo.

Quando entrei na universidade, haviam à volta de 200 caloiros na área de TI, em que apenas 15 eram raparigas. O rácio mantém-se mesmo agora em ambiente profissional, por isso sim, há falta de mulheres na área de TI. Não quer dizer que seja mau nem bom, é apenas um número. O interessante seria saber o porque das mulheres não escolherem esta área com tanta frequência, será por não gostarem? Se sim, é totalmente compreensível o rácio ser tão desequilibrado, toda a gente deveria fazer o que gosta. No entanto, se for por medo de ser uma área maioritariamente masculina, acho que o problema é a falta de informação. Cada vez existem mais mulheres em TI, pelo que não acredito que exista resistência por parte das empresas, até pelo contrário, cada vez mais incentivam as mulheres a ingressarem em TI, caso contrário, não estaria a responder a estas perguntas, correcto?

6. Quais os pontos fortes que as mulheres podem e têm trazido para a área de TI?

A inovação não tem género. As pessoas não podem ser caracterizadas só por serem homens ou mulheres, cada um tem o seu perfil com as suas capacidades. No entanto, no desenvolvimento de soluções é importante vários pontos de vista, pelo que o equilíbrio entre géneros pode tornar-se fundamental. O aumento de mulheres em TI pode também levar a que outras mulheres adoptem soluções que, se fossem desenvolvidas por homens não teriam o mesmo nível de usabilidade, não por os homens serem maus profissionais, mas sim por as mulheres compreenderem o públicoalvo. Assim, o aumento de mulheres em TI pode levar ao aumento de mercado e da economia.

7. Já sofreste algum tipo de preconceito, seja na empresa, na faculdade ou na família, por teres escolhido actuar neste ramo? 

Eu venho de uma família composta por mulheres independentes, e o que eu sempre quis foi ser como elas. Quando partilhei a minha decisão de ingressar em TI, tive o apoio total da minha família, porque sabiam que, se me esforçasse, iria ter uma carreira muito bem sucedida. Na universidade, o assunto das mulheres em TI já era falado. Os professores mostravam entusiasmo quando, de um ano para o outro, haviam mais raparigas nas salas de aula. Se existe (preconceito) eu ainda não senti. Quando andei em entrevistas para o meu primeiro emprego, eu e um amigo meu (sem sabermos) decidimos entrar na mesma empresa. Quando descobrimos um do outro, trocámos experiências e não havia qualquer diferença, quer a nível de comportamento ou de salário. Ambos passámos pelas mesmas etapas do recrutamento, fizemos testes orais e escritos e entrámos porque obtivemos bons resultados.

8. A grande maioria no TI ainda é homem. Como é a tua relação com eles?

Ao longo do meu percurso académico e profissional sempre mantive boas relações com os meus colegas. De facto, existe uma grande curiosidade por parte dos homens TI sobre as mulheres TI, pelo simples facto de existirem poucas. No meu caso, após poucos minutos de conversa, os “típicos” interesses como jogos e tecnologia são comuns, no entanto, esses interesses são maioritariamente caracterizados como masculinos, o que hoje em dia já não é bem assim. Por isso, a relação com os meus colegas é profissional e agradável, porque estou rodeada de pessoas com os mesmos interesses que eu.

Pessoas ME_entrevista Margarida

9. Qual a visão deles sobre a mulher em TI? Aqui no ME por exemplo 😉 ?

Desde o início em qualquer uma das empresas onde estive, incluindo o ME, sempre me trataram como uma profissional e com respeito. Eu acredito que me vejam como alguém que gosta do que faz, com desejo de aprender e que por acaso, é mulher. 

10. Qual a tua grande aspiração dentro de tecnologia?

Neste momento, diria que é investigar e desenvolver soluções relacionadas com o consumo de energia, visto que é um problema cada vez maior e mais preocupante. Como também me interesso por Biologia e Internet of Things (IoT), gostava de investigar a possibilidade de incluir biossensores e bioatuadores em algum aspeto da vida citadina, de modo a unificar tecnologia com a Natureza.

11. Podes deixar uma mensagem de incentivo para as mulheres que sonham em trabalhar em TI ou  nalguma outra área que ainda sofre resistência?

Tenho conhecimento que ainda existe esse tipo de resistência na área de Direito, nomeadamente, para mulheres que aspiram ser juízas, por ainda ser uma área extremamente conservadora. Felizmente, em TI, esse tipo de resistência é significativamente menor, pelo que é uma ótima aposta para mulheres que sonham em fazer uma carreira bem sucedida. A minha mensagem não apenas mulheres que sonham com áreas “masculinas”, mas também para homens que sonham com áreas “femininas”, é que ninguém vai realizar os vossos sonhos por vocês. Se a sociedade não aceitasse mudanças, as mulheres ainda não teriam direito a voto. Cabe a cada um de nós ser a diferença que queremos ver no mundo.

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